Sunday, May 17, 2020

Fórmula 1 em 1989 - O campeonato roubado de Senna

A Temporada de Fórmula 1 de 1989 foi a 40ª realizada pela FIA, ocorreu entre 26 de março e 5 de novembro de 1989, com 16 corridas. O campeão foi o francês Alain Prost, da McLaren, e o vice-campeão foi o brasileiro Ayrton Senna, também da McLaren.

Apesar da conquista de Prost, este campeonato foi envolvido em grande polêmica devido à interferência da FIA na corrida do Japão, vencida por Senna, que no entanto, foi desclassificado pelo "corte" da chicane após ter sido empurrado pelos fiscais depois da batida com Prost. Até hoje ainda há discussões sobre o título ter sido dado a Prost. Anos mais tarde, em 1996, já fora da presidência da FIA, Balestre admitiu que beneficiou o compatriota francês naquele final de campeonato.

Fiscais empurram carro de Senna após batida com Prost em 1989 Suzuka
Fiscais empurram carro de Senna após batida com Prost no GP do Japão em Suzuka de 1989

Em 1989 houve mais equilíbrio no campeonato em relação à temporada anterior mas também foi dominado e decidido entre os pilotos da McLaren Ayrton Senna e Alain Prost.



Vejamos como foram as corridas.

GP DO BRASIL - O azar prevaleceu em casa


No Brasil, Ayrton Senna acelerou nos treinos de classificação e conquistou a sua 30ª pole position da carreira, para delírio do público brasileiro.

No entanto, logo na largada, o azar reinou. Senna não largou bem e chegou na primeira curva com Riccardo Patrese (Williams), segundo no grid, e Gerhard Berger (Ferrari), terceiro.

A pista ficou estreita para os três na primeira curva e Senna foi ensanduichado pelos dois. Resultado: Patrese escapou ileso, Berger teve a Ferrari destruída e Ayrton Senna, apesar de ter perdido o bico do carro, conseguiu chegar aos boxes para reparar a McLaren e voltar à pista.

Sem se envolver no acidente, Nigel Mansell foi o dono da festa. Venceu na estreia da temporada e na sua primeira corrida pela Ferrari. Maurício Gugelmin (March) chegou em terceiro e fez as honras da casa, emplacando seu primeiro e único pódio da Fórmula 1.

Prejudicado pela confusão na primeira curva, Ayrton Senna ainda descontou uma volta e fechou em 11º, a duas do vencedor. Uma pena, porque o acerto da McLaren realmente estava impecável.

Acidente entre Senna, Berger e Patrese no GP Brasil 1989
Senna foi ensanduichado e ficou sem o bico do carro no GP Brasil de 1989.


GP DE SAN MARINO - Dobradinha da McLaren-Honda


Largando novamente na Pole, Ayrton Senna teve a sua primeira vitória no ano e subiu ao pódio junto a Alain Prost numa dobradinha da McLaren-Honda, com Alessandro Nanini em terceiro pela Benetton-Ford.

O lance chocante da corrida aconteceu logo início da quarta volta, quando a Ferrari do austríaco Gerhard Berger não fez a curva Tamburello. O carro do piloto bateu violentamente no muro da pista arrastando-se até parar. Imediatamente, a Ferrari se encharca de gasolina e pega fogo.

Em alguns segundos, os comissários de pista italianos conseguem por fim ao fogo com seus extintores e retirar Berger do cockpit. Apesar de queimaduras leves nas mãos, o austríaco escapou praticamente ileso de um dos mais assustadores acidentes da história da F1.

A prova ficou parada durante uma hora até a segunda relargada. Na segunda largada, uma polêmica com os pilotos da McLaren. Prost largou melhor, mas na freada da curva Tosa, Senna ultrapassa-o para a liderança. O francês afirma que o brasileiro tinha violado um acordo que tinham feito antes da corrida, em que quem largasse na frente não seria atacado pelo outro até depois da primeira curva. Senna no entanto, afirmou que o acordo não valeria para a relargada, já que na primeira largada o piloto tinha saído na frente.

Uma ultrapassagem em Ímola é o estopim da guerra Senna x Prost

Depois disso, as McLaren dominaram a corrida, dando quase uma volta ao terceiro classificado, a Benetton de Alessandro Nannini que herdara a posição de Nigel Mansell, que abandonou na volta 23 devido à problemas na caixa de câmbio. 

Classificação do mundial de pilotos - 2/16
Pos.PilotoPontos
1França Alain Prost12
2Brasil Ayrton Senna9
3Reino Unido Nigel Mansell9
4Itália Alessandro Nanini5
5Brasil Mauricio Gugelmin4

GP DE MÔNACO - Vitória de Senna e as pazes com Mônaco


Quinze dias após a vitória de Ayrton Senna em Ímola, a primeira dele na temporada, o brasileiro voltava ao circuito em que ele mesmo admitia ter cometido sua grande barbeiragem na Fórmula 1, um ano antes, quando bateu sozinho no guard-rail mesmo tendo quase um minuto de vantagem sobre Alain Prost, rumo a uma vitória tranquila. Motivo a mais para querer uma vitória e selar as pazes com as ruas de Monte Carlo.

O Grande Prêmio de Mônaco de Fórmula 1 foi realizado em Montecarlo em 7 de maio de 1989. Foi a terceira etapa da temporada e teve como vencedor o brasileiro Ayrton Senna que se redimiu da batida no ano anterior.

A Ferrari, uma possível rival da McLaren no final de semana, estava desfalcada de Gerhard Berger. A Ferrari colocou na pista apenas o carro do inglês Nigel Mansell, já que o austríaco Gerhard Berger se recuperava do acidente da corrida em San Marino.

No sábado, Senna obteve novamente uma pole position espetacular, com o tempo de 1min22s308, 1s148 à frente de seu companheiro de equipe, um feito e tanto para quem corria com o mesmo carro, ainda mais se tratando de um bicampeão mundial (Prost ganhou os títulos de 1985 e 1986). Era a sexta pole position consecutiva do brasileiro (Espanha, Japão e Austrália em 88, e Brasil e San Marino em 89).

Primeira volta do GP de Mônaco de 1989, em Monte Carlo — Foto: Getty Images
Primeira volta do GP de Mônaco de 1989, em Monte Carlo - Foto: Getty Images

Na volta 32, quando Andrea de Cesaris e Nelson Piquet se tocaram na curva mais lenta do circuito, na Loews, e prejudicaram os outros pilotos que vinham logo atrás. O italiano, que estava na quarta colocação, ficou revoltado com o retardatário Piquet e ficou gesticulando para o brasileiro, enquanto Prost e Thierry Boutsen tiveram que praticamente estacionar na pista, perdendo muito tempo. A cena era digna de um acidente de trânsito, mas protagonizado por dois pilotos de F-1 – incluindo um tricampeão mundial.


Atrapalhadas da F1: Nelson Piquet vs Andrea de Cesaris

Durante a prova, Ayrton novamente abriu uma grande vantagem sobre o francês Alain Prost, acima de 50 segundos, alcançando a vitória. “Considerando os problemas que tive foi um belo resultado”, disse Ayrton, ao surpreender a todos com a informação de que estava sem as duas primeiras marchas. “Primeiro fiquei sem a primeira marcha, cinco voltas depois, foi a vez da segunda. Com isso tive que mudar meu estilo de pilotagem para manter o mesmo ritmo e com isso evitar que o Prost notasse esse detalhe”, disse Senna à imprensa brasileira logo depois da corrida. Algo parecido aconteceria no GP Brasil de 1991.

GP DO MÉXICO - 33ª pole, Senna iguala recorde de Jim Clark


A altitude da Cidade do México não influiu na formação da primeira fila. Senna, na Pole, seguido de Prost, de novo, começavam o duelo na largada. Na largada, Senna manteve a ponta, seguido das Ferrari de Mansell e Berger. Prost, que largou mal, caiu para a quarta posição. Ainda na volta inicial, um incidente envolvendo os carros de Stefano Modena e Olivier Grouillard acabou fazendo com que a direção desse início a mais um procedimento de largada, com as mesmas posições do grid inicial. Claro que Ayrton Senna não gostou, mas Prost, que tinha ficado para trás, animou-se por voltar a primeira fila. A alegria durou pouco porque Senna repetiu o pulo e seguiu na primeira posição após a relargada. 

Largada do GP do México de 1989, no circuito Hermanos Rodríguez - Foto: Getty Images
Largada do GP do México de 1989, no circuito Hermanos Rodríguez - Foto: Getty Images

Na volta 20, Prost teve que trocar os pneus macios que já estavam muito desgastados, porém, os novos pneus não duraram muito e ele acabou tendo de parar outra vez 15 voltas mais tarde, deixando o caminho livre para o triunfo de Senna. Com o abandono de Mansell na volta 43 por problemas na caixa de câmbio, o pódio do GP do México foi composto por Ayrton Senna, Riccardo Patrese e Michelle Alboreto, ex-piloto da Ferrari e que conquistava o primeiro pódio da Tyrrell desde 1983. Prost foi apenas o quinto e viu seu companheiro de equipe somar 7 pontos a mais na classificação. O placar de pontos apontava 27 para o brasileiro e 20 para o francês.

Na conferência de imprensa, ao lado de Riccardo Patrese (Williams-Renault), segundo, e Michele Alboreto (Tyrrell-Ford), Senna brincou quando lhe perguntaram qual tinha sido o segredo da vitória: "Simples. Eu estava preparado para três largadas", respondeu.

Classificação do mundial de pilotos - 4/16
Pos.PilotoPontos
1Brasil Ayrton Senna27
2França Alain Prost20
3Reino Unido Nigel Mansell9
4Itália Alessandro Nanini8
5Itália Riccardo Patrese6

GP DOS EUA - Pane inesperada do motor


No treino classificatório, Senna abre quase um segundo e meio de vantagem sobre Prost. O piloto brasileiro faz a 34ª pole position, e passa a ser o novo recordista de poles. Senna supera a marca que durava 21 anos e 5 meses e que pertencia ao escocês Jim Clark. O recorde de Ayrton Senna durou até o ano de 2006, quando foi superado por Michael Schumacher.

Primeira curva: Senna e Prost nas McLarens seguidos da Benetton de Alessandro Nannini - Foto: Autoweek.

A corrida começou e Ayrton Senna liderava com folga. Transcorridos exatos 1h16min46s, na 44ª das 75 voltas, entrou nos boxes com uma fumaça azulada escapando sob o capô da McLaren. Foi um problema no motor que tirou a quarta vitória seguida de Senna na temporada. Muitos outros pilotos abandonariam, e a prova terminaria com apenas sete carros cruzando a linha de chegada.

Prost vence, seguido de Riccardo Patrese na Williams e do norte-americano Eddie Cheever na Arrows. Ayrton Senna só deixou o circuito quatro horas depois do pódio. Esteve todo aquele tempo reunido com os engenheiros da Honda, discutindo a inesperada pane do motor. Prost volta à liderança no Mundial de Pilotos.


GP DO CANADÁ - Nova quebra e zebra


Com o campeonato aberto para a disputa entre Ayrton Senna e Alain Prost, o francês voltava a ser um adversário difícil de ser superado.

Tanto que no Grande Prêmio do Canadá uma cena rara aconteceu: Alain Prost largou na pole position, com o brasileiro dividindo a primeira fila, mas na segunda posição.

Chovia na largada. Alain Prost, que foi o pole-position, foi ultrapassado por Ayrton Senna na segunda volta. Daí em diante foi uma corrida complicada. Fez sol e choveu, obrigando os pilotos a trocarem os pneus de chuva por slicks e vice-versa.

Então veio novo temporal e nova troca de pneus. As condições tornaram-se ideais para Ayrton Senna assumir a ponta e navegar para outra vitória. Quando o piloto brasileiro já administrava a vantagem, a apenas três voltas do final, o motor Honda estourou. Fim de prova para o piloto da McLaren.

Senna volta a pé para os boxes após a quebra em Montreal, em 1989 — Foto: Getty Images
Senna volta a pé para os boxes após a quebra em Montreal, em 1989 - Foto: Getty Images

A corrida teve um pódio de zebras: Vitória de Thierry Boutsen (Williams-Renault), seguido de Riccardo Patrese e Andrea de Cessaris (Dallara-Ford).

Para Senna, ficou a frustração da segunda quebra consecutiva, numa prova em que esteve prestes a recuperar a liderança do campeonato e dar um golpe psicológico em Prost. Mas Ayrton não sabia que ainda haveria muitos outros dissabores naquela temporada de 1989.


Classificação do mundial de pilotos - 6/16
Pos.PilotoPontos
1França Alain Prost29
2Brasil Ayrton Senna27
3Itália Riccardo Patrese18
4Bélgica Thierry Boutsen13
5Reino Unido Nigel Mansell9


GP DA FRANÇA - Senna quebra e Prost vence


A disputa entre Ayrton Senna e Alain Prost se acirrava em cada tomada de tempo. No Grande Prêmio da França, cada pequeno detalhe poderia fazer a diferença.

Na disputa pela pole position nos treinos, vantagem para o francês, que corria em casa, por uma diferença de 25 milésimos.

Acidente de Maurício Gugelmin em 1989: ele escapou ileso - Foto: Pascal Rondeau/Allsport

Só que Senna largou de forma esplêndida e tomou a ponta do francês logo nos primeiros metros. Mas isso de nada valeria. Mais atrás Gugelmin travou os pneus dianteiros assim que pisou no freio para a fechada primeira curva, à direita.

Sem controle, Maurício atingiu a Williams de Thierry Boutsen e a Ferrari de Gerhard Berger, e a March foi projetada sobre a outra Ferrari, de Nigel Mansell. Depois deste último contato, o carro do brasileiro ficou de cabeça para baixo e o capacete de Gugelmin até ralou no asfalto, deixando uma marca.

Na segunda largada, a McLaren de Ayrton Senna quebrou após percorrer 50 metros. Fim de prova, que terminou com a vitória de Alain Prost, sem grandes dificuldades.

Carro de Senna parado ao lado dos boxes na GP de 1989 na França
Corrida de Senna na França em 1989 durou poucos metros - Foto: Getty Images


GP DA INGLATERRA - Mais um abandono

A briga pela ponta do grid foi uma batalha entre Ayrton Senna e Alain Prost, decidida por 0,167 milésimos em favor do brasileiro. Como aconteceu em toda a temporada de 1989, a dupla da McLaren dominou a acidentada corrida inglesa, na qual só quatro carros completaram as 64 voltas. Doze terminaram a corrida e quinze ficaram pelo caminho.

Com duas voltas já ficava o brasileiro Roberto Moreno (Coloni-Ford). Ayrton Senna rodou ainda na 11ª volta, quando era líder, e abandonou o Grande Prêmio. Nigel Mansell buscava acompanhar o ritmo com a sua Ferrari, andando bem rápido, mas teve um pneu furado que o obrigou a fazer um pit stop a mais que o programado. Isso propiciou a Alain Prost vencer no seu estilo, sem grandes ousadias e sem transtornos.

F1 GP 1989 Grã-Bretanha - Senna volta a pé para os boxes após abandono.
Senna volta a pé para os boxes após abandono.

Após a corrida, Senna comentou: “Desde o começo da corrida, estava com dificuldades em reduzir para a terceira marcha e quatro ou cinco voltas antes de rodar, quase saí no mesmo local”.

Prost termina a primeira metade do campeonato com 20 pontos de vantagem sobre Senna. Na disputa do título, cada piloto só pode contar com os onze melhores resultados. Essa foi a quinta prova sem pontuar de Senna e a partir da Alemanha, o atual campeão terá que vencer sete das oito provas restantes para não deixar o francês ampliar a diferença.


GP DA ALEMANHA - as pazes com a vitória


Ayrton Senna chegou a Hockenheim muito alegre. Até soava estranho aquele bom humor para o piloto que não havia terminado as últimas quatro corridas. O seu McLaren MP4-5 tinha quebrado nos GPs dos EUA, Canadá e França e ele rodou na Inglaterra, permitindo a Alain Prost uma recuperação excepcional na briga pelo título. Mas ele não parecia sob pressão. Ao contrário, exibia um ar maroto.

Com o forte motor V10 da Honda, a equipe McLaren imaginava que seus dois pilotos lutariam apenas entre si nas longas retas da pista alemã. Mal o treino iniciou e Senna cravou a pole provisória e depois ratificou com a definitiva.

E no domingo, ainda antes da largada, Senna toma um susto. Por causa de um problema no radiador, o brasileiro precisou largar com seu carro reserva.

Na largada, Berger deu um salto espetacular e pulou de quarto para primeiro. Após a primeira curva, Senna pegou o vácuo da Ferrari, tirou para a direita e já recuperou a liderança. Alain Prost esperou chegar na segunda grande reta e também concluiu a ultrapassagem sobre Berger. O desempenho das McLaren era muito superior ao das Ferrari.

Senna e Prost despacharam concorrência desde o começo da prova em Hockenheim, em 1989 - Foto: Getty Images

Senna liderou por 19 voltas mas quando parou para o pit stop de pneus, sua equipe atrapalhou-se, gastou oito segundos a mais do que com o francês, possibilitando a este abrir vantagem na liderança. Senna voltou à pista possesso.

A partir daí, a corrida ficou apenas com os holofotes no duelo entre Senna e Prost. O francês tinha uma vantagem de quatro segundos para o brasileiro, que foi tirando décimo por décimo a diferença do rival até as voltas finais.

Pit stop desastroso tirou a liderança de Senna no GP da Alemanha de 1989 - Foto: Divulgação

No volta de número 43, antepenúltima volta, quando Prost tinha menos de um segundo de vantagem para Ayrton, o brasileiro pisou fundo e fez a ultrapassagem. O francês diminuiu o ritmo, pois tinha problemas de câmbio e cruzou a linha de chegada 18 segundos atrás de Senna. Mansell completou os três primeiros com a Ferrari.

Depois do pódio, Senna comentou o fato de ter diminuído a desvantagem de 20 para 17 pontos (53 a 36) no campeonato em relação a Prost:

“Este resultado não muda grande coisa. Continuo a lutar para chegar ao título e ainda há um longo caminho a percorrer até que este fique decidido. Não vai ser fácil, mas já estou habituado a dificuldades, pois tudo o que tenho conseguido é “na marra”, mas com muita fé, como sucedeu com esta corrida. Quando o carro estava no chão, o mecânico encarregado da roda traseira direita não ficou com a certeza de que ela estivesse bem apertada, por isso o carro foi levantado de novo para que a operação fosse repetida. Pensei então que a corrida estava quase acabada para mim, mas depois vi que o Alain não estava longe e procurei “ficar frio”, para não cometer erros e poder aproximar-me. Esperei que os retardatários me permitissem ganhar terreno, mas desta vez foi o Alain que ganhou, pois dobrava-os sempre nas retas e eu apanhei alguns junto de curvas. Tudo podia acontecer e fiquei muito próximo dele nas últimas voltas e esperava poder aproveitar a mínima oportunidade para o ultrapassar, e foi então que surgiram os problemas no carro do Alain. Os “ses” não contam na Fórmula 1. Não posso dizer se o teria conseguido ultrapassar, mas o que conta é o resultado… “.

Classificação do mundial de pilotos - 9/16
Pos.PilotoPontos
1França Alain Prost53
2Brasil Ayrton Senna36
3Reino Unido Nigel Mansell25
4Itália Riccardo Patrese25
5Bélgica Thierry Boutsen13

GP DA HUNGRIA - Carregando o carro nas costas

Não estava fácil para a dupla da McLaren acertar seus carros para o sinuoso circuito húngaro. Nos treimos, dessa vez foi a Williams de Riccardo Patrese que conseguiu tirar a pole das McLaren. Senna ficou com a segunda colocação, apenas 0s313 atrás do piloto italiano, que cravou seu melhor tempo em 1min19s726.

Foi um daqueles dias em que Ayrton Senna saiu tarde e sisudo do circuito. "Estávamos tentando descobrir um meio de não carregar o carro nas costas amanhã", desabafou.

Largada do GP da Hungria de 1989, em Hungaroring - Foto: Getty Images

Na corrida, Senna ultrapassou Patrese e liderou por algumas voltas, mas o brasileiro foi atrapalhado pela Onyx do retardatário Stefan Johansson, que vinha muito lento na pista. Para não bater na traseira do sueco, Senna precisou frear e Mansell ultrapassou os dois com facilidade para tomar a liderança e seguir na ponta até o final em uma brilhante recuperação de 12º para o 1º lugar.

Com o segundo lugar, Senna chegou aos 42 pontos no campeonato e diminuiu a vantagem de Prost, que com o quarto lugar seguia líder com 56. Mansell, após uma das maiores corridas de sua carreira, assumiu o terceiro lugar com 34 pontos. Senna, depois da corrida, brincou: "Não carreguei o carro nas costas, mas tive que empurrá-lo bastante".

Classificação do mundial de pilotos - 10/16
Pos.PilotoPontos
1França Alain Prost56
2Brasil Ayrton Senna42
3Reino Unido Nigel Mansell34
4Itália Riccardo Patrese25
5Bélgica Thierry Boutsen17

GP DA BÉLGICA - Senna dá show e vence na chuva


O circuito de Spa-Francorchamps, de 6.940 metros, é o mais longo e o mais seletivo da Fórmula 1. Tem todo tipo de curva e um longo declive e aclive, separados pela famigerada Eau-Rouge, uma perigosa curva feita de pé embaixo que desafia a coragem dos pilotos. Pois é neste tipo de traçado que Ayrton Senna mostrava competência.

No sábado, o brasileiro fez a pole position com o tempo de 1min50s867, sendo 0s596 mais rápido que o francês, segundo no grid. A segunda fila foi formada por Gerhard Berger, da Ferrari, em terceiro e Thierry Boutsen em quarto.

A largada atrasou aproximadamente uma hora devido ao excesso de água na pista. Assim que os carros largaram, o brasileiro manteve a ponta, seguido de Prost em segundo e Berger em terceiro. Mansell fez uma largada arrojada, pisou na grama molhada e mesmo assim assumiu o quarto lugar.

Senna na largada com chuva em Spa-Francorchamps - GP da Bélgica de 1989

A vitória de ponta a ponta de Ayrton marcou o seu 19º triunfo na Fórmula 1, o terceiro na Bélgica. Com o resultado, Senna descontou três pontos da vantagem de Prost, que caiu para 11 pontos (62 a 51). O terceiro colocado no campeonato era Mansell com 38 pontos e Patrese, mesmo com o abandono, se manteve em quarto com 25 pontos.

Perguntado após a corrida sobre a chuva, Senna comentou: “A verdadeira chave para o sucesso (de andar bem em pista molhada) é controlar seus instintos naturais e manter-se bem, dentro do limite”

Classificação do mundial de pilotos - 11/16
Pos.PilotoPontos
1França Alain Prost62
2Brasil Ayrton Senna51
3Reino Unido Nigel Mansell38
4Itália Riccardo Patrese25
5Bélgica Thierry Boutsen20

GP DA ITÁLIA - A maré de azar volta e motor explode


Havia uma batalha anunciada para Monza entre Ayrton Senna e as Ferrari. O brasileiro era o grande inimigo e passou a ser vaiado quando fez a pole position, com as Ferrari de Gerhard Berger e Nigel Mansell entre ele e Alain Prost. 

Ao contrário das corridas anteriores em território italiano, Senna não era mais aplaudido e sim Prost, que vinha depois da dupla da Ferrari na preferência dos 150 mil torcedores presentes no autódromo. 

A rejeição ao brasileiro estava no fato da contratação do francês pela Ferrari para 1990, anunciada na véspera do grande prêmio. Por isso é que Monza foi ao delírio quando o motor de Ayrton Senna estourou na 44ª volta, a nove da final, quando era líder destacado.

Ayrton Senna pouco antes de abandonar o GP da Itália de 1989 - Foto: Getty Images

Os italianos sonhavam com a repetição da vitória de Gerhard Berger do ano anterior, mas contentaram-se com o triunfo de Alain Prost, numa espécie de vingança contra Senna. Assim, Prost volta a abrir perigosamente 20 pontos em relação a Senna na liderança do campeonato.

Classificação do mundial de pilotos - 12/16
Pos.PilotoPontos
1França Alain Prost71
2Brasil Ayrton Senna51
3Reino Unido Nigel Mansell38
4Itália Riccardo Patrese28
5Bélgica Thierry Boutsen24

GP DE PORTUGAL - Batida polêmica de Mansell em Senna


O GP de Portugal foi uma das provas mais polêmicas da temporada de 1989 da F-1 e o desfecho desta prova abriu o caminho para o episódio final em Suzuka, no mês seguinte, quando Alain Prost jogou a McLaren em cima de Ayrton Senna.

Precisando chegar na frente de Prost em Portugal para manter suas chances de título, Senna e a McLaren não contavam com o progresso de Nigel Mansell e Gerhard Berger. O desempenho da Ferrari era crescente na temporada. A escuderia italiana chegou no Autódromo de Estoril para dificultar a prova para a dupla da McLaren, que levava o campeonato em uma disputa doméstica.

Senna liderou todos os treinos e fez a pole position com o tempo de 1min15s468, 0s591 mais rápido que Gerhard Berger, segundo no grid. O austríaco e o britânico Nigel Mansell se posicionaram à frente de Alain Prost, que era apenas o quarto colocado.

Largada do GP de Portugal de 1989, no Estoril - Foto: Reprodução

Durante a corrida, as Ferrari de fato mostraram que dariam trabalho na sequência da temporada. Berger largou melhor e contornou a primeira curva na liderança. Senna era o segundo, Mansell permaneceu em terceiro e Prost na quarta posição.

O brasileiro tinha bastante trabalho para segurar Mansell e na oitava volta o “Leão” tomou a segunda posição ao pegar o vácuo do brasileiro e completar a ultrapassagem no final da reta principal.

No início da prova, Berger até havia aberto uma boa margem de vantagem para Mansell, mas o austríaco teve dificuldades com os retardatários e foi justamente nesse momento em que o seu companheiro de equipe aproveitou e tomou a liderança no mesmo trecho da pista em que havia ultrapassado Senna, desta vez na volta 23.

Percebendo a dificuldade de Berger com os retardatários, Senna também colou no austríaco na volta 26. Logo depois, Prost fez seu pit stop na volta 28 e parecia ter apenas um simples objetivo: levar o seu carro até o final na zona de pontuação.

Berger fez seu pit stop na volta 35 e Senna trocou pneus na volta 36. A parada da Ferrari foi 7 segundos mais rápida que a da McLaren e distância aumentou entre os dois.

Mansell foi o último dos líderes a fazer seu pit stop, na volta 39. Com o box da Ferrari logo depois do da McLaren, que era o primeiro, Mansell acabou passando da área de troca de pneus. O britânico não pensou duas vezes e engatou a marcha ré dentro do box, o que é contra o regulamento da Fórmula 1.

O pit stop demorou uma eternidade e o inglês retornou à pista na terceira posição. Senna se motivou com o atraso de Mansell e colou novamente na traseira de Berger para buscar a vitória, mas o britânico começou a pilotar desesperadamente na caça do brasileiro, que precisou se defender e perdeu novamente o contato com o austríaco.

Na volta 47, Mansell recebeu o primeiro sinal de bandeira preta da direção de prova, desclassificando o britânico pela irregularidade no pit stop. Na volta 48, Mansell não recolheu a Ferrari para os boxes e na volta 49, ainda na pista, o piloto inglês não acatou a punição e bateu forte com a McLaren de Senna, tentando uma manobra de ultrapassagem impossível. Os dois pilotos saíram da prova em uma disputa em que o grande prejudicado foi o brasileiro, pois Mansell já estava eliminado da corrida.

Senna e Mansell no momento da batida em Portugal, em 1989 - Foto: Reprodução

Com isso, Berger venceu, Prost foi o segundo e o sueco Stefan Johansson foi a surpresa no pódio, com sua Onix. Senna tinha tudo para diminuir a vantagem de Prost e no final acabou vendo o francês ampliar a vantagem para 24 pontos. Senna teria que vencer as três provas finais e cumpriria bem seu papel até outra polêmica batida, desta vez com seu companheiro de equipe, Prost, jogando o carro contra o brasileiro em Suzuka.


GP DA ESPANHA - Uma luz no horizonte...


Depois do dissabor do improvável acidente com Nigel Mansell em Portugal, Ayrton Senna queria reencontrar a vitória na Espanha, buscando diminuir a vantagem de 24 pontos que Prost possuía sobre ele. O jeito era vencer as três corridas restantes para conquistar os 27 possíveis ainda em disputa. E Senna se empenhou para isso.

Nada melhor que uma pista na qual Ayrton já havia feito história, Jerez de la Frontera. Em 1986 Senna venceu Mansell por apenas 14 milésimos de segundo. Já em 1989, Senna fez tudo parecer fácil, já que conquistou a pole position à frente de Gerhard Berger, Alain Prost e Mansell, com o melhor tempo nos dois dias de treino. Foi a pole position número 40 de Ayrton na Fórmula 1, com mais de 1 segundo de vantagem para seu grande rival na luta pelo título, Alain Prost.

Durante a corrida, manteve a liderança de ponta a ponta durante as 73 voltas, cravando também a volta mais rápida. O segredo em Jerez foi a largada. As posições de início foram mantidas no pódio: Ayrton Senna vencedor, Berger em segundo e Prost em terceiro, o que parecia bem provável pelo número de curvas sinuosas e da grande dificuldade de praticar a ultrapassagem no circuito. Mas Senna sempre foi além do provável, isso ele mostrou ao terminar a prova 27 segundos na frente de Berger e 53 segundos na frente de Prost. Foi a vigésima vitória de Senna na F-1 e a sexta na temporada de 1989.

“Alguém me deu esta vitória. Alguém mais forte do que nós”, disse Ayrton aos jornalistas.

Senna segura o troféu depois de vencer o Grande Prêmio da Espanha em 1989

E não foi fácil. Senna subiu ao pódio mancando. Ele estava com dores nas costas e no nervo ciático (atrás da perna), devido ao grande esforço físico. Sobre a corrida, Senna explicou que os freios estavam meio “moles” e que as dores aumentaram muito após a volta 30. Ele somente não saiu da corrida por causa de sua motivação característica.

Uma bela despedida de Ayrton Senna da temporada europeia. Agora, decidiria no Japão com Alain Prost quem seria o campeão de 1989. Para conquistar o título Ayrton ainda teria que vencer as últimas duas provas (Japão e Austrália). Prost apenas precisava jogar com o regulamento embaixo do braço para ser campeão. Pode-se dizer que o francês foi um pouco além disso, ao ver a constante evolução de Senna no final da temporada.

Classificação do mundial de pilotos - 14/16
Pos.PilotoPontos
1França Alain Prost76
2Brasil Ayrton Senna60
3Reino Unido Nigel Mansell38
4Itália Riccardo Patrese30
5Bélgica Thierry Boutsen24

GP DO JAPÃO - Vitória roubada no tapetão pelos franceses


A briga pelo campeonato teve seu capítulo final no circuito de Suzuka, no Japão. Ayrton Senna chegou com 60 pontos “válidos” (apenas os 11 melhores resultados contavam): tinha vencido seis vezes na temporada. Prost tinha vencido apenas quatro, mas possuía 76. O francês teve uma temporada mais regular com seis 2º lugares, enquanto Senna tinha abandonado em cinco corridas. Por isso, Senna tinha que descontar 16 pontos nas duas últimas provas. Ele precisava da vitória e ainda torcia por tropeços do companheiro de equipe.

Ayrton fez a sua parte nos treinos. Fez a pole com 1min38seg04, obtendo quase 2 segundos de vantagem para o francês, uma eternidade na Fórmula 1. Na largada, Prost tracionou melhor e fez a primeira curva na frente, com Ayrton em segundo. A diferença entre os dois durante mais de 40 voltas foi praticamente no visual: era uma corrida à parte dos demais, assim como foi durante toda a temporada.

Na 47a volta, Senna armou o bote na chicane antes da entrada da reta dos boxes, colocando sua McLaren por dentro da curva, mas o francês acabou “fechando” a porta antes mesmo da tomada da primeira perna da chicane. Ambos se tocaram. Alain Prost ficou de fora. Ayrton Senna pediu ajuda dos fiscais de pista para retornar a prova e voltou à pista.

Foto icônica da batida de Prost em Senna - Suzuka 1989

“Aquele era o único lugar onde eu poderia fazer uma ultrapassagem. Alguém que não deveria estar lá, simplesmente fechou a porta e causou o choque”, disse Senna depois da corrida em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

Mesmo com a frente de sua McLaren avariada pela fechada recebida, Ayrton insistiu na luta pelo título: teve que ir ao box trocar sua asa dianteira, quebrada no toque. Saiu do pit em segundo lugar, atrás de Alessandro Nanini. Tinha uma desvantagem de mais de cinco segundos para o piloto da Benetton. Faltando três voltas para o final, ele conseguiu a ultrapassagem que o deixaria ainda na batalha pelo campeonato. Senna recebeu a bandeira quadriculada na volta 53 e se emocionou muito no carro: o título seria decidido na última prova.

Os cartolas da Fórmula 1, no entanto, ratificaram a punição ao brasileiro que acabou nem subindo ao pódio.

Segundo o artigo 56 do código disciplinar da F-1 em 1989, caso um carro ficasse parado no meio da pista, os comissários poderiam removê-lo para um local seguro e, se o piloto conseguisse fazer o motor voltar a funcionar (como Senna), o piloto poderia voltar a prova. A irregularidade apontada foi justamente o corte da chicane por Senna – após a batida, os carros de Senna e Prost ficaram posicionados fora do traçado e, como o brasileiro não voltou para a pista no mesmo ponto onde saiu, foi desclassificado. A decisão, claro, gerou bastante polêmica: afinal, para não “cortar a chicane”, o brasileiro teria que vir no sentido contrário do traçado. Além disso, era evidente que não houve vantagem técnica no “corte”, já que Senna perdeu muito tempo com a batida.

À época, muitos desconfiaram de que aquela era uma decisão parcial, uma vez que Balestre era amigo de Prost e ambos são franceses. Anos mais tarde, em 1996, já fora da presidência da FIA, Balestre admitiu que beneficiara o compatriota naquele final de campeonato.

Nos dez anos anteriores à temporada de 1989, nenhuma das 26 desclassificações de pilotos ocorridas foi por erro de trajeto ou percurso irregular.

Alain Prost ficou assim com o título da temporada em sua despedida da McLaren. Uma temporada que não precisava terminar ali, mas terminou. Mas em 1990, Senna daria o troco vencendo o campeonato – e de uma maneira que seria, de certa forma, a redenção por sua injusta punição no ano anterior.

Classificação do mundial de pilotos - 15/16
Pos.PilotoPontos
1França Alain Prost76
2Brasil Ayrton Senna60
3Reino Unido Nigel Mansell38
4Itália Riccardo Patrese36
5Bélgica Thierry Boutsen28

GP DA AUSTRÁLIA - Final amargo


Ayrton Senna (McLaren-Honda), que largou na pole-position, abriu vantagem no início da prova, mas uma colisão na segunda volta, envolvendo 5 carros, impôs uma nova largada. Chovia tão forte que o campeão da temporada, Alain Prost, recusou-se a relargar. Prejudicado pelo spray d'água que se formou, Senna acertou a traseira do inglês Martin Brundle (Brabham-Judd), que era retardatário, abandonando na 13ª volta. Além de Senna, Prost e Caffi, outros 15 pilotos (entre eles, Nelson Piquet, Gerhard Berger e Nigel Mansell) deixaram a corrida.

Com a visibilidade prejudicada, a prova foi encerrada com 70 das 81 voltas previstas. O belga Thierry Boutsen (Williams-Renault) foi o vencedor, em que apenas oito carros terminaram. Os italianos Alessandro Nannini (Benetton-Ford) e Riccardo Patrese (Williams-Renault) completaram o pódio.

Senna deu entrevista contundente contra Balestre e Prost na Austrália, em 1989 - Foto: Reprodução/redes sociais

Sem a vitória na Austrália e sem qualquer chance de recuperar a vitória de Suzuka, Senna disse que estava "em paz com Deus", mas não quis cravar sua continuidade na Fórmula 1:

- Nem estou dizendo que estou parando, nem estou dizendo que vou continuar. Tenho certeza de que Ron Dennis e os patrocinadores me darão a oportunidade de decidir o que for melhor para mim. Ainda não tomei qualquer decisão e sequer tenho um desejo claro. Vou dar um tempo ao tempo. Vou refletir, esquecer isto tudo por alguns dias.

Pelo bem da Fórmula 1, Senna prosseguiu sua inesquecível carreira.


Classificação do mundial de pilotos - 16/16
Pos.PilotoPontos
1França Alain Prost76
2Brasil Ayrton Senna60
3Itália Riccardo Patrese40
4Reino Unido Nigel Mansell38
5Bélgica Thierry Boutsen37
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